O céu éburneo e pardacento não augurava nada de bom, pensou Zakri, olhando pela janela do seu 53º andar, enquanto fritava as duas últimas salsichas da sua última lata. Lembrou-se da sua infância em Tazrovlek e da estranha parecença das mulheres da aldeia, com o aspecto tostado que adquiria os cilindros comprimidos de carne de porco, pelo menos a semelhança com as mais bonitas.
Ligou a televisão, meias finais do Torneio de Wimbledon. A relva aparada a esquadro e régua era selváticamente agredida por um objecto amarelo, esférico e com pêlos.
Zakri fez uma careta, na sua aldeia não havia relva, só pedras e poeira amarela, definitivamente preferia Roland Garros. Metafisicamente, espreitou de soslaio para a janela e num impulso abriu o trinco e escancarou-a.
Então, amarrou o avental à cintura, pegou na frigideira, deixando escorrer o azeite quente pelas pernas e agarrando no único ovo que lhe restava, olhou o vazio em frente. Janela aberta, mundo aberto, aldeia em vislumbre, águias em planantes desafios sorrindo sardónicamente, e lançando com a mão esquerda , num gesto bailarino o ovo, em câmara lenta a rodopiar em ascensão, desferiu uma pancada seca, quarenta centimetros acima do zénite da sua testa e pela janela voou o concepturo oviforme.
E gritou , deixando-se cair de joelhos, rangendo as rótulas:
" Jogo, set e match para Zacri, que se foda Wimbledon "