terça-feira, 27 de janeiro de 2009

E ela virou-se, fixou sombriamente a luz parda do velho candeeiro e, sibilando e procurando refúgio e raiz numa cadeira, baloiçando a mão esquerda, para me deslocar no espaço e na mente, disse-me :
- Passada uns dias deixo de conseguir visualizar as pessoas... mentalmente, percebes? Lembro-me do cheiro e do gosto da carne e do tecido que a cobre, da voz, dos locais dos abraços, da pedra e do alcatrão e do mar, mas não da cara...por vezes o cabelo surge ou mesmo uma curva e um deslize na face, mas há um buraco que não me deixa ver tudo e que surge sempre em movimento quando finalmente consigo fixar um olho com as pestanas ajaezadas ou uns lábios que se encobrem envergonhados . Não consigo prender a geometria dos rostos e isso faz-me sentir perdida, como se nada me pertencesse e estivesse sempre ausente.
Fez-me uma festa, deixando cair as costas da mão sobre o pescoço nu, puxou-me a camisa até aos ombros, rebentando o botão de cima que se despediu da linha que teimosamente o prendia. Seria dela para sempre. Olhei para a vitrine, eles olharam para mim! Cerrei os olhos, o cutelo desceu.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O Ouvido está ligado ao cérebro - Joy Division


Não me consigo recordar nunca dos meus sonhos, sei que são intensos, mas por artes que não compreendo ou por falha cerebral geograficamente localizável por qualquer aparelho computadorizado, desvanecem-se quando abro os olhos e afastam-se lentamente nebulosos e brincalhões. Já pensei em ter um bloco de notas sempre à mão ou melhor dizendo, sempre à cabeça, mas nunca tive coragem para o usar. Parece-me que isso seria desvirtuar a natureza da coisa mais sagrada que possuo, a minha mente. Seria um artificialismo desumano, pois se não hás-de recordar sonhos, porque é que pensas que os podes violar encerrando-os numa caixa de papel e carvão? Sempre se poupa na maçada de os contar a outrem, de ceder à tentação ridícula de contar um sonho a outra pessoa e esperar que essa alma diferente da nossa se compadeça com uma previsão de um desastre iminente ou se exulte com uma promessa de felicidade surreal, ou pior, se muna imediatamente de um pavoroso qualquer manual divinatório, charlatanice suprema do mundo da falta de confiança humana ou corra a conjugar Vénus com Marte ou o nosso pobre rochedo estéril com qualquer astro que por forças graviticas e primordiais vive pendurado na elíptica celeste. Deixem-me dormir!
Combater a ordem
Pugnar pela desordem
Como se fosse um velho anarquista
Irado e convencido da sua ira
E odiando-se
Por ter encontrado a matemática
Nos rios que sempre descem
E na gravidade que sempre atrai
No desejo que sai da carne

A matemática não é uma coisa humana
A desordem
É a única humanidade que nos resta
Bendito cérebro

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009



“I wear this crown of thorns”
Listening 100 men marching
Seeing nothing but dirt

A man askes for a coffee
The bartender tells him
“you know, don´t worry
the land it´s the tissue
we´re the scares”

A man looks at his daughter
As she shouts and swirles
“don´t worry darling,
even the wind
fails against the mountain”

A man rises his drink
And pray for the future
“Don´t worry, man
I´ll return to your glass
Be free to kill”

A man shaved himself
With shuddering hands
“Don´t worry my love
God had longed beards
And no one cares about”

“I wear this crown of thorns”
Listening 100 men marching
Seeing nothing but dirt

O Diabo vence sempre, ainda bem!

Simon del Desierto - Luis Buñuel



Toma o meu casaco
Ouve a minha música
Come da minha boca
Mergulha no meu sexo
Rouba-me os olhos
Esventra-me os pensamentos
Mas usa a minha faca
Não te preocupes
Eles voltam a crescer.

Plug in

Talvez numa manhã, eu consiga lançar-me de pés juntos e dar um salto dentro da realidade, forjar em fogo e sangue o meu desejo . Tem que ser de manhã, quando a Lua já não for testemunha, a noite não me enganar e os sorrisos forem ternos, sinceros e brutais. Tudo tem que ter a sua luz e o vicio é mais belo sem artifícios. O corpo pede luz, as trevas só são sábias se desarmadas. Fora de controle é bom, mas tenho que ver a luz.

Pelos magníficos locais infectos
Passei de mãos cruzadas
Em ti morei
Em ti morri
De cada vez que te beijei
Senti a sede de não mais morar

Abro a janela para tudo fluir, o mar devia morar aqui e levar-me desta janela, enrugando-me o corpo em grãos de areia quentes, átomos a quem eu devia pertencer, para tudo fazer , sem vestes ou pesadas máquinas de moldar ânimos e desânimos.

Pelos mares viajei
Entrando em enseadas e penínsulas
Recolhendo-me em portos
dos melhores, os naturais
com o rosto em sal
feliz e solar