domingo, 31 de maio de 2009

Medusa e Argus




Os mortos, os moribundos, os deserdados, os sem nada, os abandonados, os que se agarram à vida no corpo dos outros, batidos pelos elementos, do mais cruel o humano, agitam a esperança desesperada sob a jangada quebrada , os gritos saem da cena e invadem-nos em pleno século digital.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


Os homens, paralelos e pesados
autómatos em série
de rugas e vincos
de sustento e força

E a cidade
sob o crepúsculo
inerte e acessa
inatingível
tanto mar até lá
tanto mar...

domingo, 17 de maio de 2009

Hoje , no Museu do Chiado

Cores da arte vanguardista na Roménia 1910-1950


Marcel Iancu - A noite



Apcar Baltazar - Adão e Eva


Camil Ressu - Camponesas na Igreja

sábado, 16 de maio de 2009

Pequenos contos de amor sobre campos de ténis -II

O céu éburneo e pardacento não augurava nada de bom, pensou Zakri, olhando pela janela do seu 53º andar, enquanto fritava as duas últimas salsichas da sua última lata. Lembrou-se da sua infância em Tazrovlek e da estranha parecença das mulheres da aldeia, com o aspecto tostado que adquiria os cilindros comprimidos de carne de porco, pelo menos a semelhança com as mais bonitas.
Ligou a televisão, meias finais do Torneio de Wimbledon. A relva aparada a esquadro e régua era selváticamente agredida por um objecto amarelo, esférico e com pêlos.
Zakri fez uma careta, na sua aldeia não havia relva, só pedras e poeira amarela, definitivamente preferia Roland Garros. Metafisicamente, espreitou de soslaio para a janela e num impulso abriu o trinco e escancarou-a.
Então, amarrou o avental à cintura, pegou na frigideira, deixando escorrer o azeite quente pelas pernas e agarrando no único ovo que lhe restava, olhou o vazio em frente. Janela aberta, mundo aberto, aldeia em vislumbre, águias em planantes desafios sorrindo sardónicamente, e lançando com a mão esquerda , num gesto bailarino o ovo, em câmara lenta a rodopiar em ascensão, desferiu uma pancada seca, quarenta centimetros acima do zénite da sua testa e pela janela voou o concepturo oviforme.

E gritou , deixando-se cair de joelhos, rangendo as rótulas:
" Jogo, set e match para Zacri, que se foda Wimbledon "
Acariciava a palavra
com intento na lingua
como se desmaiasse ao suspirar
como se a pendurasse ao sol
a secar
e os brancos dentes a empurrassem
livre, destinatário certo

Apanhava o ar com as mãos
e com os polegares, portas de templos
a palavra brincava , escorregando dos lábios
fechava-a num segredo
sorria
olhos em expectativa
maiores que eles próprios

e num repente
como se um mundo fosse criado,
livre, livre
a palavra ondulava
mais leve que o sopro
convidando os verbos que viajavam
ao concilio dos átomos e da matéria

O ouvido e o impressionismo estão ligado ao cérebro - Wim Martens


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pequenos contos de amor sobre campos de ténis -I

Bocejando, enterrei as mãos nos bolsos.
Deixei o cigarro na boca à laia de boémio, descaído e quase acabado e cerrando tudo o que o rosto aguentava, entredentes e entre fôlegos, disse :
" O court n.º 2 está ocupado"
Ela olhou-me com desdém e do alto dos seus muitos metros, cintilando abjectamente as duas fancarias a fingir diamantes, pendurados nos lóbulos inchados, disse :
"Se não tivesses demorado tanto tempo a enterrar o teu amigo no jardim..."
Sorrindo, cuspi o cigarro, que certeiramente atingido por um pontapé fulmínante, descreveu um movimento cinemático, desafiador da gravidade e aterrou inerte e vencido na calçada.
Ela era agora uma Górgona, imunda e feroz, prestes a saltar sobre a presa, a raquette oscilando perigosamente, hipnotizando-me para desferir o golpe fatal.
Dolentemente, olhei o relógio e disse :
"Carne picada de novilho no Continente, embalagem de 400 gr. - devíamos aproveitar, está quase a fechar..."
Abriu as pestanas e fez aquele beicinho, desarmante, igual ao mesmo de há 20 anos , quando a conheci na conferência na Nova sobre" Kierkegaard, como precursor da indumentária em Goebbels, uma influência falhada quanto aos botões de punho"
Entrámos no carro, o sol despedia-se da horizonte, farto em prédios de construção duvidosa, pegou-me na mão , antecipando o gesto de manietar a mudança e segredou-me:
"Vamos só a casa buscar o cartão dos pontos"

O Sonho do Astronauta Doido

O verdadeiro exílio
será nas estrelas
onde toda a luz
se contrairá
devastadora e obnubilante.

Levarás um foguetão de lata
junto ao peito
sob a medalha
sob a carapaça de homem
junto ao peito

cortarás o cordão umbilical
sorrindo, adeus
sorrindo, criança veloz
em direcção ao infinito

mandarás , anos depois
ao amanhecer,
reentrando na abóbada
d´ouro, abraços ternos.

sábado, 2 de maio de 2009

A Sagração da Primavera



O corpo transmuta-se
Atribulações, só tenho atribulações, dizia o homem despindo a farda de militar e pavoneando-se compulsivamente num compulsivamente livre que fazia voar pássaros e gritar corações , cola-se à primeira esquina velha da praça e estende os braços para as outras três esquinas, quatro braços , veias , pele, carne, musculos, tendões, mãos, dedos, unhas, esmaga-se e funde-se, o homem é agora uma teia humana sobre a praça, uma aranha faminta, linda e transparente, os prédios retortam-se para o ver, abanam-se, gritam, lançam grinaldas de varandas e vasos de cerâmicas roubadas ao barro da terra, o homem é agora é uma cúpula, um céu, uma sinfonia de extâse, cresce em profusão, bate em deus e vaporiza-o com um sopro, cresce, cresce, cresce, cresce, faz amor com as latitudes e as longitudes, torna o longe perto e desmaia no mar e recria as ondas, esquece o medo, o esquecimento e não pondera mais, mais, o homem quer desmembrar as palavras e engole timbres, melodias, notas, sons, engole silêncios e nadas, nadas e mais nadas ponto final e começo

A Ilustre casa de Black Adder

Goes Forth


Há mãos que deslizam em constelações.

De que cor é o vento?

A criança treme e agita-se, agarra-se ao cabelo e procura refúgio na coluna imóvel que é o pai. Cerra os dentes, cerra os olhos, não compreende a força, mas sabe onde é o ancoradouro, amarra-se nas pernas com amarras de braços. No meio do parque, sob os plátanos e os ulmeiros despenteados e teimosos , o musgo fronda-se e invade a pedra dos bancos. O vento corre indiferente, ama em vértice as andorinhas e os pardais. O sol acaricia a criança.

De que cor é o vento?

É verde, diz a criança.


then, now, always